Safra cheia

* José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

O desempenho do agronegócio segue sendo excelente; quadro favorável continua sendo afetado pela mediocridade da nossa infraestrutura.

A safra que começou a ser colhida vai ser muito boa. Como consequência, a renda agrícola será grande. Além disso, os efeitos benéficos no custo da alimentação continuarão muito importantes e as exportações crescerão bastante, como já mostrou a boa balança comercial de fevereiro.

O desempenho do agronegócio segue sendo excelente. A crise brasileira o afetou muito pouco, tanto que a área cultivada aumentou e o nível de tecnologia se mantém muito bom. Como neste ano o clima está bem decente, a produção vai “bombar”. (Falamos do clima de um ponto de vista geral, mas, como o País é enorme, sempre existem problemas localizados de excesso ou de escassez de chuvas).

A crise atual vem afetando o setor sobretudo pela retração da demanda urbana e atinge, especialmente, o setor de carnes. Entretanto, a recuperação da produção de milho e a queda no seu preço estão aliviando significativamente o resultado na criação de suínos e de aves. Além das carnes, o etanol está sendo afetado, uma vez que o consumo de gasolina vem se reduzindo em termos absolutos, o que é um evento raríssimo.

Uma das boas consequências da safra 2016/2017 é que estamos vendo a consolidação de uma importante elevação de produtividade da soja. Nossa média tem sido da ordem de 50 sacas por hectare. Entretanto, os melhores produtores conseguem com muita frequência uma produtividade superior a 60 e até 70 sacas por hectare.

Esse quadro favorável continua sendo afetado pela mediocridade da nossa infraestrutura. O caso atual é o colapso temporário do tráfego na BR-163, principal via de escoamento de parte da produção do Mato Grosso para os portos do Norte do País. Os transtornos dessa situação são relevantes e significam prejuízos para produtores, transportadores e exportadores.

Infelizmente, o Ministério dos Transportes (há muitos anos propriedade de determinado partido político) tem uma longa história de problemas e escândalos e uma ineficiência assustadora. O colapso da BR-163 ilustra bem esse cenário, razão pela qual não espero nenhuma melhora significativa na área de logística neste ano.

A cadeia do agronegócio continua avançando sistematicamente. Como já mencionamos várias vezes, isso decorre de duas características: abertura ao exterior e ausência de protecionismo e um modelo de negócios que tem no ganho de produtividade, decorrente de tecnologia mais avançada, sua característica mais importante. É isso que o caso da soja ilustra bem.

* * * * *

O setor não está isento de maus momentos.

É isso que está ocorrendo na área do café, mais precisamente na quebra da produção de conilon no Espírito Santo, decorrente de uma enorme seca ocorrida recentemente. O Estado, que chegou a produzir 10 milhões de sacas, colheu apenas metade disso no ano passado, o que deve se repetir neste ano.

Como consequência, os preços do conilon explodiram, chegando até a igualar, em alguns momentos, aos preços do arábica, coisa jamais ocorrida.

Como resultado da escassez, a indústria de torrado e moído começou a reduzir o uso do conilon na mistura, o que é um risco, porque nunca se sabe qual será a reação do consumidor. Na indústria do solúvel, as possibilidades técnicas de substituição são muito mais limitadas, o que leva a um forte aumento de custos ou a uma redução da produção, caso o repasse não possa ser feito. A solução lógica seria importar robusta, por certo tempo e ressalvados os cuidados sanitários, para reequilibrar o mercado. Esse tem sido o entendimento correto do Ministério da Agricultura.

Entretanto, os produtores, apoiados pela bancada ruralista, têm reagido fortemente à ideia de importação, que até agora não ocorreu.

O comportamento dos produtores de café é um erro. A reação madura seria defender o mercado para o conilon, não prejudicando os compradores, dentro de uma visão de desenvolvimento de longo prazo.

O comportamento anti-importação vai prejudicar principalmente o Espírito Santo. Quando a produção se normalizar, a partir de 2018, os produtores vão encontrar uma indústria de solúvel mais enfraquecida e misturas de café torrado e moído que se utilizem cada vez menos de conilon.

Estamos vendo mais um caso de tiro no pé.

* Economista e sócio da MB Associados.

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