Acordo Mercosul–UE vira aposta do café solúvel diante de tarifas dos EUA

Folha Business

Stefany Sampaio

Agro Business

Stefany Sampaio revela o universo do agronegócio capixaba de Norte a Sul, destacando dados, histórias inspiradoras e os principais acontecimentos do setor.

O avanço do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE) reacendeu as expectativas da indústria brasileira de café solúvel em um momento crítico para o setor. Desde o ano passado, os Estados Unidos (EUA), principal destino do produto brasileiro, aplicam tarifas adicionais ao café solúvel, reduzindo a competitividade do Brasil e pressionando os exportadores.

Tarifa de importação para o café solúvel brasileiro que chega na Europa é de 9%
Para o diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), Aguinaldo Lima, o tratado com a UE representa um avanço estratégico, mas não é uma solução imediata para os prejuízos decorrentes das medidas americanas.

“No caso das tarifas americanas, o problema é imediato. Já estamos perdendo mercado. O acordo Mercosul–UE, mesmo que seja assinado agora, ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos europeus e pelos países do bloco sul-americano. Esse processo leva de dois a três anos para entrar em vigor”, explica Aguinaldo Lima.

Pelo tratado, a tarifa aplicada ao café solúvel brasileiro na UE, atualmente de 9%, seria reduzida gradualmente ao longo de quatro anos. Para o setor, a abertura tarifária tende a consolidar o mercado europeu como o mais importante destino do produto, especialmente diante das incertezas nos EUA.

“A União Europeia já é o segundo maior mercado para o café solúvel brasileiro e pode se tornar o principal. Toda redução tarifária nos ajuda, mas ela não vai mitigar os impactos das tarifas americanas no curto prazo”, afirma Lima.

Diversificação difícil e dependência histórica dos EUA

Sem perspectivas de reversão das tarifas pelos EUA, pelo menos enquanto o governo Trump está concentrado em suas ações na Venezuela, o setor intensificou ações diplomáticas e comerciais, mas admite que substituir o mercado norte-americano é inviável no curto e médio prazos.

“É muito difícil diversificar mercados para compensar a perda americana. O Brasil já é agressivo comercialmente e é o maior produtor e exportador mundial. O problema é que temos poucos acordos comerciais e enfrentamos tarifas em vários países, o que dificulta ampliar presença ou abrir novos destinos”, diz.

Além disso, a relação brasileira com os importadores americanos é antiga e consolidada. “Estamos falando de um mercado que atendemos há mais de 60 anos, com clientes de mais de 50 anos de relacionamento. Nada compensa essa perda. Hoje, todas as nossas ações estão voltadas para tentar reverter essa situação nos Estados Unidos”, reforça.

Questionado sobre a possibilidade de o Espírito Santo, um dos principais exportadores de solúvel, ampliar presença na UE, Aguinaldo Lima pondera que o movimento é coletivo.

“O produto brasileiro é formado por indústrias instaladas em São Paulo, Paraná e Espírito Santo. Quanto mais o Brasil exportar, mais o Espírito Santo ganha, porque tem um parque de produção relevante.” Para ele, o desempenho capixaba está diretamente ligado ao protagonismo nacional. “A história do Espírito Santo está atrelada ao sucesso do Brasil. As duas andam juntas.”

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