Indústria já eleva o volume de conilon em seus blends de café

Valor Econômico, por Alda do Amaral Rocha

O recuo dos preços do café conilon no mercado interno, reflexo da recuperação da oferta no Brasil após mais de dois anos de escassez, faz a indústria de torrado e moído retomar, aos poucos, os volumes da espécie que utiliza em seus blends com arábica.

No segundo semestre de 2016, auge da crise de oferta de café conilon em decorrência da seca no Espírito Santo – maior produtor nacional -, o preço superou os R$ 550,00 por saca – e até ultrapassou os de algumas variedades de arábica, segundo levantamento do Cepea. Diante da escassez e dos preços elevados, a indústria chegou a utilizar apenas 10% a 15% de conilon em suas misturas com arábica. Antes, tradicionalmente, usavam, em média, 50% de conilon e 50% de arábica nos blends.

Essa proporção ainda não foi retomada, mas a tendência é que isso ocorra à medida em que os preços do conilon se distanciam dos do arábica. Neste mês, a saca de conilon ao produtor está em R$ 307 – quase 26% menos que há um ano. A do café arábica consumo interno, que pode substituir o conilon, está em R$ 430,00. (ver gráfico)

Segundo Nathan Herszkowicz, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), a proporção nos blends é atualmente de 35% a 40% de conilon, em média, e 60% a 65% de arábica. “Com esse diferencial de preço e com o mercado apostando em suprimento normal de conilon, a indústria voltou a usar mais conilon no blend”, observa.

As estimativas da Conab para a produção de conilon na próxima safra, a 2018/19, sustentam as expectativas da indústria. Conforme a primeira previsão, divulgada em janeiro, a colheita da espécie no país deve somar entre 12,70 milhões e 13,96 milhões de sacas, alta entre 18,4% e 30,2% em relação a 2017/18, quando já havia ocorrido uma pequena recuperação. O Espírito Santo deve produzir entre 7,66 milhões e 8,63 milhões de sacas (de 29,5% a 46,3% de alta), segundo a Conab. A recuperação decorre do clima mais favorável, com chuvas mais regulares desde o segundo semestre de 2017.

Para Jorge Luiz Nicchio, presidente do Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV), a tendência é que a proporção vá a 45% a 50% de conilon nos blends a partir de maio e junho, com a entrada no mercado do produto da nova safra que começa a ser colhida no fim de abril em algumas regiões do Espírito Santo.

“Logo voltará a ter a mesma relação [que tinha antes]”, avalia Edimilsom Calegari, gerente geral da Cooperativa dos Cafeicultores de São Gabriel (Cooabriel), de São Gabriel da Palha (ES), referindo-se aos percentuais de conilon e arábica nos blends da indústria. Pelas estimativas da cooperativa, a maior de café do Espírito Santo, a produção no Estado deve crescer cerca de 20% em relação as 6 milhões de sacas do ciclo 2017/18.

Segundo Nicchio, desde novembro passado, quando os preços do conilon começaram a cair de maneira mais expressiva – refletindo o início da recuperação da produção capixaba -, as indústrias voltaram a colocar um maior volume do produto nos blends. Esse movimento, contudo, é gradativo, uma vez que implica alterações no sabor da bebida.

Além de o conilon ter um custo menor, a indústria o utiliza nos blends dos cafés tradicionais porque a espécie torna a bebida mais encorpada e ajusta o sabor, diminuindo a acidez dos arábicas.

Nicchio afirma que o atual nível de preços do conilon não era esperado para esta época. “A expectativa era de que o preço chegasse ao atual patamar só em março, mas caiu antes porque o produtor começou a vender já que havia café do ano passado”, observa.

Para ele, o recorde de preço do conilon de R$ 550,00, de novembro de 2016, teve um “efeito psicológico sobre o produtor, que ficou com esse valor na cabeça e não vendeu o café quando estava na casa dos R$ 400 a R$ 450”.

Além de permitir que a indústria torrefadora retome as quantidades de conilon em seus blends, a maior disponibilidade do produto também deve ajudar a indústria de café solúvel a recuperar parte das exportações que perdeu no último ano. O conilon é a principal matéria-prima do solúvel, com uma fatia de 85%.

Aguinaldo José de Lima, diretor de relações institucionais da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) estima que os embarques devem crescer 2% em relação a 2017, quando tiveram forte queda justamente em função da menor oferta de café conilon.

No ano passado, as exportações de solúvel caíram quase 11%, para o equivalente a 3,453 milhões de sacas, após recorde de 3,874 milhões de 2016. Segundo Lima, o Brasil perdeu contratos principalmente para clientes da Ásia e alguns países europeus. Ele acredita que a alta deste ano deve vir da recuperação de parte de mercados perdidos e do aumento de consumo em algumas regiões.

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