ENFOQUE-Brasil dá largada à colheita de café mais cedo e com relatos de perdas no ES

Por José Roberto Gomes

SÃO PAULO (Reuters) – A colheita de café da safra 2019 no Brasil já começou em algumas áreas do Espírito Santo, entre 15 a 20 dias antes do usual, com produtores relatando perdas de produtividade por causa do forte calor nos meses anteriores, ao passo que a indústria se mantém otimista quanto à oferta e à qualidade do grão.

Maior produtor e exportador mundial de café, o Brasil vê a colheita engrenar a partir de maio, inicialmente nas plantações de conilon (robusta) de Espírito Santo e Bahia. Depois, os trabalhos passam para as lavouras de arábica em Minas Gerais e São Paulo, principalmente.

Mas altas temperaturas neste ano, sobretudo no mês de janeiro, aceleraram a maturação dos cafezais, e a colheita já está se iniciando em algumas regiões.

Segundo Antônio Joaquim de Souza Neto, vice-presidente da Cooabriel, cooperativa de café conilon localizada em São Gabriel da Palha (ES), há colheitas em alguns municípios do noroeste capixaba, como Nova Venécia e Vila Valério, e também em certas áreas no sul da Bahia.

Ele calculou que o Estado, maior produtor de conilon, colherá neste ano 15 por cento menos ante o potencial, com o volume atingindo no máximo o piso do intervalo projetado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), de 9,5 milhões de sacas, ante 9 milhões em 2018.

“O calor foi cinco graus acima da média e queimou o grão, murchou o grão”, disse ele, acrescentando que a cooperativa, com mais de 5 mil associados, deve receber em torno de 1,4 milhão de sacas de café neste ano, aquém do 1,5 milhão esperado previamente, porém mais que o 1,2 milhão do ciclo anterior.

O produtor Jaéder Fiorentini, que cultiva em São Gabriel da Palha, comentou que já começou sua colheita, com certas áreas registrando pesos até 35 por cento abaixo do esperado devido ao “sol escaldante”. Ele também disse ter ouvido relatos de perdas de 60 por cento no sul baiano.

ARÁBICA

O que se vê de antecipação no conilon também é esperado para o arábica, principal variedade cultivada no país.

“O arábica vai chegar mais cedo, teve uma florada em agosto, teve calor muito grande em janeiro. Vamos ter uns 15 dias antes produto no mercado. Normalmente é na segunda quinzena (de maio), mas creio que já teremos na primeira”, afirmou o analista Gil Barabach, da consultoria Safras & Mercado

O comentário relacionado a uma colheita mais prematura vai ao encontro do que disse Carlos Paulino da Costa, então presidente da Cooxupé, maior cooperativa de café do Brasil, no fim de fevereiro.

Apesar dos problemas, a expectativa por enquanto é de que o Brasil colherá uma grande safra de café neste ano.

Conforme a Conab, a produção total de café em 2019 deve atingir 52,5 milhões de sacas (ponto médio de um intervalo estimado). Trata-se do segundo maior volume da história, abaixo apenas dos mais de 60 milhões de sacas do ano passado, quando a bienalidade positiva do arábica puxou para cima a colheita.

“As notícias reforçam oferta abundante… A ICE já está precificando essa colheita. Acho que pode acontecer aquele descolamento entre mercado interno e bolsa. Internamente, tem espaço para o preço cair mais”, destacou Barabach.

Atualmente, as cotações do café na ICE oscilam perto de mínimas em 13 anos. Internamente, estão na casa dos 380 reais para o arábica e dos 280 reais para o conilon, segundo o Cepea, da Esalq/USP.

QUALIDADE

Produtores de conilon que já começaram a colheita relatam qualidade abaixo do esperado em seus cafés, disse o presidente da Cooabriel, ao passo que Barabach, da Safras & Mercado, ponderou ser ainda muito cedo para se fazer uma avaliação mais ampla.

Na indústria, porém, a expectativa ainda é positiva.

“Avaliamos que o nível de oferta vai ser bem adequado para suprir a nossa demanda. A qualidade vai estar dentro do normal, sem grandes mudanças e, portanto, também adequada às nossas necessidades”, disse o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), Pedro Guimarães.

O conilon é uma matéria-prima chave para o café solúvel, e a indústria sofreu muito entre 2015 e 2017 devido a uma forte quebra de safra no Espírito Santo.

De lá para cá, porém, a produção capixaba se recuperou, e a Abics vê os embarques de solúvel novamente em alta em 2019.

“O setor espera aumento no volume similar ao ano passado, ou seja, de 5 por cento, o que representa mais 200 mil sacas sobre os 3,695 milhões exportados em 2018”.

Na véspera, o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Ricardo Silveira, também disse que a qualidade do café neste ano tende a ser parecida com a do passado.

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