Por Raphael Salomão e Mariana Letizio — São Paulo
A manutenção de tarifas contra o café solúvel do Brasil atinge o custo de vida de cerca de 30,5 milhões de consumidores americanos. A afirmação é do presidente da National Coffee Association (NCA), William Bill Murray, em nota enviada à reportagem, por meio da assessoria de imprensa.
“O café é um elemento essencial na vida dos americanos, e seus preços continuam sendo um símbolo bastante visível dos recentes e acentuados aumentos no custo de vida”, diz Murray.
Na terça-feira, a Representação de Comércio dos Estados Unidos (USTR) propôs a adoção de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Nesta quarta-feira, o governo Trump voltou à carga, com o acréscimo de 12,5% para diversos produtos, o que inclui o café solúvel do Brasil.
A nova alegação é a de produção com o uso de trabalho forçado ou análogo à escravidão, que as autoridades americanas incluíram na investigação baseada na seção 301 da lei de comércio.
A proposta de novas tarifas contraria as expectativas da indústria de solúvel brasileira. Quando o governo Trump incluiu o café na lista de exceções à tarifa global, deixou o produto de fora, o que manteve a cobrança de 10% sobre as importações.
A taxa global é temporária e deixa de vigorar em julho. Se as novas cobranças se confirmarem, o café solúvel brasileiro será taxado em 37,5%. O produto representa cerca de 10% das exportações totais de café do Brasil para os Estados Unidos.
A indústria brasileira argumenta que, além do grão e do café torrado e moído, o solúvel brasileiro é parte importante do consumo nos Estados Unidos. Uma posição que conta com o apoio da própria NCA e de Bill Murray, seu presidente.
“A manutenção das tarifas sobre o café solúvel impacta os cerca de 30,5 milhões de adultos americanos que consomem diariamente, e o café solúvel também é um insumo essencial para a fabricação de produtos de valor agregado nos EUA, como o cold brew e o café pronto para beber”, diz Murray, na nota.
A proposta das novas tarifas ainda passará por consulta pública. O governo americano receberá manifestações até 6 de julho de 2026 e realizará audiências no dia 7, antes de tomar uma decisão.
Na terça-feira, em mensagens enviadas à reportagem, Aguinaldo José de Lima, diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), disse que a proposta de novas tarifas traz tensão para a cadeia produtiva.
Ele pontuou, no entanto, que, diferentemente de períodos anteriores, há uma abertura maior para negociações com as autoridades americanas.
“Antes, estava muito difícil. Agora, temos um ambiente para discutir isso. Existe a possibilidade de enviarmos comentários, vamos ter audiências”, disse.
Foco é manter grão verde na lista de exceções
O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) avalia o cenário com preocupação. Marcos Matos, diretor-geral do Cecafé, diz que a prioridade é manter o café verde na lista de exceções elaborada pelos Estados Unidos.
Ele também aponta que o setor trabalha para preservar na lista de exceções outros produtos já contemplados, como o café torrado e moído. Ambos representam menos de 0,5% das exportações.
Matos afirmou que o Cecafé já acompanhava de perto a investigação conduzida com base na Seção 301, mecanismo que permite ao governo dos Estados Unidos investigar países cujas práticas e políticas sejam consideradas prejudiciais aos exportadores americanos, e classificou o processo como um cenário “complexo”. Segundo Matos, representantes da entidade estiveram em Washington para acompanhar de perto as discussões.
“Nós imaginávamos um cenário delicado, só não imaginávamos que as medidas fossem essas e que contariam com uma audiência pública”, disse. “Uma das alternativas para mitigar os impactos é a construção de um acordo bilateral que preserve o fluxo comercial do café entre os dois países”, complementou.
